A crescente medicalização da infância e da adolescência está relacionada a um imaginário social que sustenta a ideia de que é possível criar filhos sem sofrimento, frustrações ou conflitos. Espera-se que crianças e adolescentes sejam felizes de forma permanente e que possam se tornar aquilo que desejarem sem enfrentar obstáculos significativos. No entanto, essa expectativa desconsidera que a felicidade é uma experiência transitória e que o sofrimento faz parte da condição humana.
As perdas, as frustrações, os limites e os desafios inerentes ao desenvolvimento desempenham um papel fundamental na construção da autonomia, da resiliência e da capacidade de enfrentamento. Criar filhos sem sofrimento não é possível, assim como não é possível aprender, amadurecer ou desenvolver-se sem entrar em contato com as dificuldades próprias da vida. Essa lógica também alcança a escola, que frequentemente recebe demandas para que o processo de aprendizagem ocorra sem desconfortos, exigências ou frustrações.
Nesse contexto, experiências humanas legítimas, como tristeza, angústia, desânimo e luto, passam a ser interpretadas como problemas que exigem intervenção imediata. Entretanto, é fundamental distinguir sofrimento de adoecimento. Nem toda dor é sinal de doença. Muitas vezes, ela representa uma resposta esperada diante das circunstâncias vividas e cumpre uma importante função psíquica.
O luto é um exemplo significativo. Trata-se de um processo que envolve reorganização emocional, ressignificação de vínculos e reconstrução de projetos de vida. Embora doloroso, esse percurso permite ao indivíduo elaborar a perda e encontrar novos sentidos para sua existência. Quando o sofrimento é interrompido prematuramente, corre-se o risco de limitar processos importantes de amadurecimento e elaboração subjetiva.
Essa reflexão torna-se ainda mais relevante na adolescência, período marcado por profundas transformações físicas, emocionais, cognitivas e sociais. O adolescente é convocado a lidar com questões relacionadas à identidade, sexualidade, pertencimento, projetos profissionais e ingresso na vida adulta. Frequentemente, sente-se observado, avaliado e julgado, ao mesmo tempo em que ainda está construindo recursos para compreender e expressar suas vivências internas.
Por essa razão, a medicalização na adolescência exige cautela. Muitos conflitos, inseguranças e sofrimentos fazem parte do próprio processo de desenvolvimento e precisam ser elaborados para que o jovem construa recursos internos capazes de sustentá-lo diante das exigências da vida adulta. O crescimento emocional não ocorre pela ausência de conflitos, mas pela capacidade de enfrentá-los e atribuir significado às experiências vividas.
Isso não significa desconsiderar a importância dos medicamentos. Em muitos casos, eles são recursos terapêuticos fundamentais. Sua utilização torna-se especialmente necessária quando o sofrimento ultrapassa a capacidade do sujeito de refletir, estabelecer vínculos ou realizar suas atividades cotidianas. Nessas situações, o medicamento pode oferecer uma redução importante do sofrimento, criando condições para que o indivíduo retome sua capacidade de elaboração psíquica.
Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que nenhuma intervenção farmacológica substitui os processos de construção da identidade, da autonomia e da capacidade de tomar decisões. Os desafios inerentes à existência humana exigem não apenas alívio do sofrimento, mas também a construção de recursos subjetivos que permitam enfrentá-los de maneira saudável.
Nesse cenário, família e escola desempenham papéis fundamentais. Cabe à família oferecer referências, limites, valores e suporte emocional, permitindo que o adolescente encontre figuras de confiança às quais possa recorrer diante das dificuldades. À escola, por sua vez, cabe promover o desenvolvimento acadêmico, social e emocional, criando condições para que os estudantes aprendam e se desenvolvam em um ambiente acolhedor.
Também é necessário refletir sobre a crescente tendência de encaminhar crianças e adolescentes para avaliações especializadas diante de dificuldades escolares ou comportamentais. Embora tais encaminhamentos sejam indispensáveis em muitas situações, eles não devem constituir a única resposta aos desafios apresentados pelos estudantes. Antes de atribuir exclusivamente ao indivíduo a origem das dificuldades, é necessário considerar aspectos pedagógicos, relacionais, familiares e contextuais envolvidos em cada situação.
A medicalização torna-se problemática quando passa a ocupar o lugar da escuta, do diálogo e da compreensão das singularidades do desenvolvimento humano. O desafio consiste em reconhecer quando o sofrimento demanda intervenção clínica e quando ele representa uma experiência legítima do processo de crescimento. Mais do que eliminar toda forma de dor, é preciso ajudar crianças e adolescentes a desenvolver recursos para lidar com as adversidades inevitáveis da vida, fortalecendo sua autonomia, sua capacidade reflexiva e sua saúde mental.
