A ciência do desenvolvimento infantil demonstra que a empatia e o autocontrole não são habilidades inatas e plenamente desenvolvidas desde o nascimento. Embora as crianças apresentem predisposições para a conexão social, a capacidade de compreender os sentimentos do outro, imaginar sua dor e colocar-se em seu lugar precisa ser construída ao longo do desenvolvimento.
A empatia envolve a habilidade de reconhecer que as próprias ações podem afetar outras pessoas. No entanto, essa competência depende do amadurecimento de estruturas cerebrais que ainda estão em formação durante a infância.
O cérebro de uma criança pequena pode ser comparado a uma casa em construção. Uma das áreas mais importantes nesse processo é o córtex pré-frontal, localizado na região frontal do cérebro, logo atrás da testa. Essa estrutura é responsável por funções como controle dos impulsos, planejamento, tomada de decisões, regulação emocional e avaliação das consequências dos próprios atos.
É justamente o córtex pré-frontal que nos permite refletir antes de agir e compreender, por exemplo, que empurrar alguém pode causar uma queda e provocar dor ou lesões. Entretanto, essa região cerebral é uma das últimas a atingir a maturidade completa, processo que geralmente se estende até os vinte e poucos anos de idade.
Por essa razão, quando uma criança pequena empurra, agride ou age impulsivamente, na maioria das vezes isso não ocorre por maldade ou intenção deliberada de causar sofrimento. Frequentemente, trata-se de uma consequência natural da imaturidade cerebral e da ausência de mecanismos de autocontrole plenamente desenvolvidos.
Contudo, compreender essa realidade não significa ignorar comportamentos inadequados. Pelo contrário, significa reconhecer que o papel do adulto é atuar como um “freio externo” enquanto a criança desenvolve seu próprio freio que é o sistema de autorregulação. O adulto funciona, temporariamente, como o controle que o cérebro infantil ainda não consegue exercer sozinho.
É importante destacar que o desenvolvimento desse “freio” interno não ocorre de forma automática. Seu amadurecimento depende diretamente dos estímulos oferecidos à criança ao longo da infância. Habilidades como esperar a sua vez, seguir regras, cumprir combinados, organizar suas responsabilidades e tolerar frustrações são fundamentais para o fortalecimento das funções executivas do cérebro. Quando a criança não é estimulada a desenvolver essas competências, o processo de amadurecimento pode ser prejudicado ou retardado, dificultando a construção da autonomia, da responsabilidade e da compreensão do seu papel no convívio social. Em outras palavras, a criança precisa aprender gradualmente que faz parte de um mundo com limites, regras e responsabilidades compartilhadas.
Nesse contexto, os limites não devem ser ensinados por meio de gritos, humilhações ou violência. Evidências científicas indicam que práticas educativas baseadas no medo podem prejudicar o desenvolvimento emocional e não promovem a aprendizagem efetiva da empatia. Limites são mais eficazmente ensinados com firmeza, clareza, consistência e respeito.
Diante de uma situação em que a criança empurra um colega, por exemplo, o adulto deve intervir imediatamente, explicando de forma objetiva que aquele comportamento não é aceitável porque pode machucar outra pessoa. Também é importante incentivar a reparação do dano, como pedir desculpas e refletir sobre os sentimentos do colega.
Essa orientação precisa ser repetida inúmeras vezes ao longo do desenvolvimento. É a repetição consistente das regras, associada ao exemplo dos adultos, que contribui para a construção das conexões neurais responsáveis pelo autocontrole e pela empatia. O grito não constrói essas habilidades; o ensino contínuo e coerente, sim.
A verdadeira supervisão consiste em transformar cada comportamento inadequado em uma oportunidade de aprendizagem. Cada intervenção respeitosa ajuda a criança a desenvolver a capacidade de compreender o outro, regular suas emoções e agir de forma mais consciente.
Antes de rotular uma criança como “problemática”, é fundamental lembrar que empatia e autocontrole não nascem prontos. São competências que precisam ser ensinadas e praticadas diariamente, por meio da paciência, da persistência e da orientação adequada.
A criança que empurra hoje pode tornar-se um adulto cuidadoso, responsável e empático amanhã. Para isso, precisa contar com adultos que lhe mostrem, com amor, firmeza e constância, o caminho para desenvolver essas habilidades essenciais para a vida em sociedade.
